E não me consigo cansar dele!
É simplesmente irresistível!
Acabei de ler uma das suas cartas.
Ouçam..Ele para mim é um génio. Ele poderia ser maluco e tal mas...Era completa e verdadeiramente ele próprio. É que por mais defeitos e maluquices tontas que ele tivesse...Na realidade, isso é que faz com que as pessoas sejam únicas. Por isso, e enquanto andar entretida a ler as cartas que ele escrevia à sua Ophelia, ele é o REI.
E é o REI porque dá respostas e sentidos a outras cartas, principalmente àquelas que vêm dos infernos.
Isto era para ser postado só amanhã...Mas como acabei de ler um pensamento tão parecido com o que o Fernandinho escreveu...Aqui o coloco. ;)
Carta n.º36
«Ophelinha:
Agradeço a sua carta. Ella trouxe-me pena e allivio ao mesmo tempo. Pena, porque estas cousas fazem sempre pena; allivio, porque, na verdade, a unica solução é essa - o não prolongarmos mais uma situação que não tem já a justificação do amor, nem de uma parte nem de outra. Da minha, ao menos, fica uma estima profunda, uma amisade inalteravel. Não me nega a Ophelinha outro tanto, não é verdade?
(...)
O tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece tambem, mas mais depressa ainda, as affeições violentas. A maioria da gente, porque é estupida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contrahiu o habito de se sentir amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As creaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade d'essa illusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por elle a estima, ou a gratidão, que elle deixou.
Estas cousas fazem soffrer, mas o soffrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão de passar o amor e a dor, e todas as mais cousas, que não são mais que partes da vida?
(...) Quando casar, se não tiver a felicidade que merece, por certo que não será sua a culpa.
Quanto a mim...
O amor passou. (...)
(...)
Peço que não faça como a gente invulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infancia, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras affeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memoria profunda so seu amor antigo e inutil.
Que isto de "outras affeições" e de "outros caminhos" é consigo, Ophelinha, e não commigo. (...)
Não é necessario que comprehenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha.
FERNANDO
29/XI/1920»
PESSOA, Fernando; Cartas de Amor a Ophélia Queiroz; Ática
Estas e mais cartas de pensamentos comuns a Fernando, só aqui, no Correio de Coimbra